Guarda doméstica de animais silvestres no superior tribunal de justiça: direito do homem ou da natureza?

Autores

DOI:

https://doi.org/10.25109/2525-328X.v.23.n.02.2024.3298

Palavras-chave:

Animais silvestres. Guarda afetiva. Superior Tribunal de Justiça. Função ecológica. Extinção. Maus tratos

Resumo

O tráfico de animais silvestres é a 3º maior atividade ilícita do mundo. No Brasil, estima-se que, a cada ano, 38 milhões de espécies são retiradas de seu habitat natural pelo tráfico. A lei de proteção à fauna proibiu, desde 1967, a comercialização de espécimes da fauna silvestre. A lei de crimes e infrações ambientais, no art. 25, § 1º, estabeleceu que os animais apreendidos ou resgatados devem ser entregues aos órgãos ambientais para que sejam devolvidos à natureza. Apesar disso, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça admite a manutenção da guarda afetiva de animais silvestres. Neste contexto, este artigo analisará a jurisprudência do STJ, de 1998 a 2020, para entender em que hipóteses o dono afetivo permanece com os animais. Por meio de pesquisa quantitativa e qualitativa, usando o método jurimetria, o trabalho estudou 15 acórdãos sobre o tema, a partir da visão biocêntrica de Peter Singer. Como resposta, identificou um protagonismo do IBAMA no questionamento judicial da guarda afetiva. Apesar da vedação legal, o STJ em 93% dos julgados mantém o animal com o dono afetivo. O silvestre tornou-se doméstico. O bem-estar animal se materializou a partir do olhar do homem. Isso independe de o animal estar em risco de extinção. Com essa pesquisa, busca-se chamar atenção para os impactos dessa posição jurisprudencial na função ecológica, no risco de extinção e na crueldade com a fauna, conforme o art. 225, § 1º, inc. VII, da Constituição de 1988.     

Biografia do Autor

Mariana Barbosa Cirne, Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa

Doutora e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Brasília (UnB). Especialista em Direito Constitucional pela Universidade Potiguar (UNP), e em Direito Processual Civil pelo Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP). Bacharela em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Procuradora Federal da Advocacia-Geral da União (AGU). Professora de Direito Constitucional e Ambiental no Centro Universitário de Brasília (CEUB).

Marcia Leuzinger, Centro Universitário de Brasília

Pós-Doutorado em Direito Ambiental pela University of New England (Austrália, 2016). Doutora em Desenvolvimento Sustentável/Gestão Ambiental, Mestre em Direito e Graduada em Direito, e Estado pela Universidade de Brasília (UnB). Procuradora do Estado do Paraná em Brasília. Professora de Direito Ambiental e Direito Administrativo da Graduação e do Programa de Doutorado e Mestrado do Centro Universitário de Brasília (CEUB). Professora Adjunta da Faculdade de Direito da University of New England, Austrália.

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Publicado

2024-06-28

Como Citar

CIRNE, M. B.; LEUZINGER, M. Guarda doméstica de animais silvestres no superior tribunal de justiça: direito do homem ou da natureza?. REVISTA DA AGU, [S. l.], v. 23, n. 02, 2024. DOI: 10.25109/2525-328X.v.23.n.02.2024.3298. Disponível em: https://revistaagu.agu.gov.br/index.php/AGU/article/view/3298. Acesso em: 3 abr. 2025.

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Artigos